Marx defendia “Estado máximo” ou o Estado como meio?

Começa sempre com uma pergunta que parece simples. O que é que Marx “defendia” quando falava do Estado? Para uma parte do público, a associação imediata é a de um poder colossal, burocrático e intrusivo, a comandar tudo. Para outros, a imagem que salta é a de uma transição revolucionária que usa o Estado por um tempo curto e, depois, o dissolve. É aí que a conversa fica interessante. O Estado, para Marx, não é um altar para venerar, nem um demónio para abater por capricho. É uma forma histórica. Serve interesses materiais concretos. E muda de figura conforme a própria sociedade muda.

karl marx explicando sobre o Estado

Ao longo destas páginas, vamos dar uma volta pelo pensamento de Marx e de Engels sobre o Estado, detendo-nos mais tempo nos momentos em que há estado como instrumento transitorio, sobretudo no período de transição entre capitalismo e comunismo. Pelo caminho, vamos tropeçar na Comuna de Paris, perceber porque é que a “ditadura do proletariado” não é um palavrão autoritário quando lida no contexto original, e desmontar a ideia de “Estado máximo” da mesma forma que desmontamos uma peça de lego: retirando um bloco de cada vez até se ver a arquitectura por dentro.

Para Marx, o que é o Estado?

Não há uma definição única, mas há uma ideia recorrente: o Estado é uma condensação institucional das relações de classe. Onde uma classe domina economicamente, o Estado cristaliza essa dominação em leis, tribunais, polícia, exército, administração. Marx e Engels repetem esta nota em diversas obras; é quase um refrão. O Estado moderno, no capitalismo, aparece como mediador universal, neutro e “de todos”. Porém, quando se raspa a pintura, o que se encontra é um aparelho que garante a reprodução das relações capitalistas: propriedade privada dos meios de produção, mercado de trabalho assente na necessidade de vender a força de trabalho, e uma legalidade que protege essas condições.

Não é que o Estado faça apenas o que a classe dominante manda, linha a linha; tem autonomia relativa, cabe lá dentro conflito, compromisso, até reformas. Mas essa autonomia não paira acima da sociedade, flutua dentro de limites traçados pela estrutura económica e pela correlação de forças. Esta perspectiva permite compreender porque é que, para Marx, “mais Estado” ou “menos Estado”, em abstracto, diz pouco; o essencial é quem controla o Estado e para quê.

A tentação de ler Marx com os óculos errados

A expressão “Estado máximo” encaixa melhor em tradições que imaginam o Estado como engenheiro social permanente, com vocação para planear e regular cada recanto da vida. Marx não fala assim. Quando lê o Estado no capitalismo, ele vê-o como guarda da ordem existente; quando fala do período de transição, vê-o como ferramenta de classe que se usa por um tempo histórico; quando olha ao fundo do horizonte comunista, imagina o definhamento do Estado, não um milagre instantâneo, mas um processo de perda de funções à medida que as bases materiais da dominação de classe desaparecem.

A confusão nasce de dois movimentos contrários que, à distância, parecem a mesma coisa: por um lado, a fase de transição pode implicar medidas vigorosas, organização firme, reconfiguração do aparelho político; por outro, o fim visado não é um Estado hipertrofiado, e sim uma sociedade que dispensa esse aparelho enquanto entidade separada. Dito de outra maneira: há fases em que o Estado se torna mais visível porque está a ser desmontado e refeito; isso não é uma apologia do “máximo”, é a engenharia de uma ponte entre formas de vida incompatíveis.

A Comuna de Paris como laboratório

Marx ficou fascinado com a Comuna de Paris de 1871, não por romantismo, mas porque ali apareceu um vislumbre institucional que o ajudou a pensar. Os comunardos não se limitaram a “tomar” o Estado existente; inventaram uma forma diferente. Mandatos revogáveis, salários de funcionários próximos do salário operário, fusão entre função legislativa e executiva, milícia popular em vez de exército permanente. Não é um programa fechado, mas um gesto teórico-prático: o Estado, para servir a emancipação, teria de ser quebrado nas suas engrenagens centrais, não apenas ocupado.

Repara como estas medidas não fazem crescer o Estado. Fazem o contrário: aproximam o poder dos comuns, barateiam a política, desprofissionalizam a dominação, cortam os andares altos da burocracia. Quando Marx escreve sobre a Comuna, não está a desenhar um Leviatã; está a intuir uma maquinaria mais leve e porosa, e, sobretudo, temporária. Um aparelho que existe para desmontar as relações que o tornam necessário.

“Ditadura do proletariado”

A frase assusta, não vale a pena negar. Acontece que, em Marx, “ditadura do proletariado” indica hegemonia política da classe trabalhadora num período de transformação, com democracia alargada para baixo e guerra aberta contra os resíduos de privilégio que resistem. Não equivale a governo de um homem só, culto de personalidade, polícia política sem freio. É uma categoria histórica: quem manda, manda para desarmar as condições de exploração e criar o terreno de uma sociedade sem classes. Onde a dominação de classe se desfaz, o Estado, enquanto separação entre governantes e governados, começa a perder razão de ser.

Esta leitura bate certo com a lição da Comuna: mandato revogável e controle popular são antídotos contra o fechamento autoritário. Se perdermos de vista este contexto, confundimos Marx com as caricaturas que vieram mais tarde, quando regimes do século XX reivindicaram o seu nome para práticas que congelaram o Estado em vez de o fazer definhar.

Estado como meio, não como fim

É aqui que a resposta à pergunta do título ganha contorno: Marx não defendia um “Estado máximo”. Defendia o uso do Estado como meio para quebrar a velha máquina, socializar as condições materiais da vida e, ao longo desse processo, transferir funções para organizações colectivas que deixam de precisar de um árbitro separado. Em linguagem simples: o Estado serve para chegar a um lugar onde já não é preciso um Estado como o conhecemos.

Há quem diga: mas isso é uma utopia longínqua. Pode ser. Porém, o ponto teórico é claro: o Estado não é um valor intrínseco, é uma ferramenta histórica. Tem de ser manejada com firmeza, sim, mas com a consciência de que quanto melhor for usada, mais rapidamente se torna dispensável.

mínimo, máximo, necessário

Quando o debate vira tabelas, costuma perder alma. Desta vez, vale a pena experimentar um quadro curto apenas para evitar mal-entendidos:

Plano históricoFunção do EstadoSinais concretosDirecção tendencial
CapitalismoGarantir a reprodução das relações de exploraçãoExército permanente, burocracias profissionais, legalidade da propriedade privadaManutenção da ordem social
Transição (hegemonia operária)Meio de demolição e reconstrução institucionalMandatos revogáveis, milícia popular, centralidade da participação, socialização de meios de produçãoEncolhimento do Estado enquanto “poder separado”
ComunismoPerda de funções políticas coercivasAdministração de coisas, autogoverno social alargado, conflitos não estruturados por classesDefinhamento do Estado

A palavra “máximo” nunca chega a entrar no vocabulário de Marx para designar o fim desejado. Entra, no limite, a noção de intensidade política da transição, que pode exigir medidas concentradas. Mas intensidade não é hipertrofia; é ritmo. É o tempo de uma obra em que a demolição e a construção convivem sem grande delicadeza.

Reformas, revolução e os tropeções da vida real

Marx não se apaixona por varinhas mágicas. Sabe que há reformas que aliviam a vida e abrem espaço para organização, e há reformas que amarram a energia social num circuito de expectativas geridas por cima. A distinção não depende do “tamanho” do Estado, depende de para onde puxa a corda: para desmercantilizar o essencial da vida, democratizar o poder e encurtar a distância entre decisão e executores; ou para administrar a desigualdade com um verniz de inclusão.

Por isso é que, historicamente, se encontram políticas “estatais” muito robustas vistas por Marxistas como meios (saúde universal, escola pública, proteção laboral) e não como “estatismo”. Não contam como “Estado máximo” em sentido pejorativo; contam como pontos de apoio onde a sociedade aprende a governar-se sem ter de vender a vida ao mercado. Se uma política amplia a autonomia colectiva, afina a bússola com o que Marx tinha em mente para a transição.

E a burocracia? O problema que cresce quando não é vigiado

Marx e Engels desconfiavam da burocracia como classe de carreira, com interesses próprios. A Comuna volta a servir de farol: salários próximos do operário qualificado, revogabilidade, rotação. São mecanismos simples que impedem o Estado de engordar como um corpo separado. Quando a burocracia se fecha, transforma o “meio” num “fim” e aprisiona o processo. Aqui vale sublinhar, sem rodeios: sempre que o Estado se converte em proprietário permanente da transformação, trai o guião.

É nestes pormenores que se percebe que Marx não queria um Estado máximo, queria um Estado a ser constantemente puxado para baixo, controlado, simplificado, aproximado do quotidiano e, no limite, substituído por formas de coordenação que já não precisam da casca do “poder político”.

Onde a leitura de Marx foi torcida

O século XX oferece tanto material que é fácil perder o fio. Alguns regimes invocaram Marx para justificar a centralização como valor absoluto, uma espécie de culto da planificação estatal. O que se passou ali não foi a aplicação linear de Marx; foi uma combinação específica de industrialização acelerada, cerco externo, lógicas de partido-Estado e, nalguns casos, culto pessoal. Ler Marx à luz desses resultados é como julgar a física de Newton a partir de um carro mal afinado.

Não se trata de absolver equívocos históricos, trata-se de separar teoria e trajectórias. Em Marx, a teoria é clara o suficiente: o Estado é meio, não destino. Quando o meio deixa de apontar ao definhamento, a bússola avisa que nos afastámos da rota.

Um fio que atravessa tudo: materialidade e tempo histórico

A chave que fecha a porta é a mesma que a abre: as instituições não flutuam no vazio. Se há abundância relativa, tempo social alargado, educação alicerçada na cooperação, o Estado-coerção perde músculo; se há escassez, guerra, competição feroz, ele refortalece-se. Marx não promete milagres institucionais sem base material correspondente. Só diz: quando a estrutura económica libertar a política, a política deixa de precisar de um bastão tão pesado.

É aqui que a resposta parece quase óbvia: Marx não defendia um Estado máximo. Defendia um uso ousado e controlado do Estado enquanto ferramenta para desarmar as condições que exigem o Estado como poder separado. O paradoxo desaparece quando aceitamos que a mesma mão que segura a ferramenta tem a tarefa de a arrumar assim que o trabalho permitir.

Para fechar com o olhar no leitor

Tudo isto pode soar muito abstracto, mas repara como toca o chão: quando discutimos hoje a propriedade de dados, as plataformas digitais que mediam grande parte da vida, a transição energética, as cadeias logísticas que atravessam continentes, estamos sempre a perguntar: quem tem a caneta que escreve as regras? Se aceitarmos que a caneta pertence a uma minoria, o Estado aparece como guarda dessa história. Se a caneta muda de mão, o Estado pode ser o lápis que desenha a passagem e, depois, o apagador das linhas que já não fazem falta.

A pergunta do título, afinal, ganha uma resposta com duas ênfases: não, Marx não queria um Estado máximo; sim, Marx via o Estado como meio. Um meio vigoroso no ponto de viragem, um meio que se torna menor à medida que cumpre a sua função, um meio que, no final, se dissolve na gestão cooperante da vida comum.

E talvez seja isto o mais importante a reter: quando um meio se transforma em fim, não estamos a ler Marx; estamos a perder o sentido do caminho.

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