Tem um jeito simples de entrar nessa conversa sem cair na caricatura. Renda variável, no fim das contas, é um nome elegante para uma coisa bem concreta: participação no lucro futuro de empresas e, por tabela, participação no desenho de poder que organiza a economia. É por isso que progressistas tendem a olhar para ações com um misto de curiosidade e desconfiança. Curiosidade porque ali passa uma parte do dinheiro que decide o que vai ser construído, financiado, demitido, automatizado, poluído ou despoluído. Desconfiança porque, com frequência, o mercado vira mais um motor de desigualdade do que um caminho de prosperidade compartilhada.
E aqui já aparece um detalhe interessante: quase ninguém “progressista” olha para o mercado exatamente igual. Tem o progressista mais institucional, que fala de regulação, transparência, governança. Tem o progressista mais heterodoxo, que usa palavras como financeirização e rentismo. Tem o progressista sindical, que enxerga ações principalmente como um campo de disputa sobre salários, condições de trabalho e poder de negociação. A lente muda, mas a pergunta que volta sempre é parecida: quem ganha, quem paga a conta e quem decide?

A primeira suspeita é sobre o jogo e não sobre o jogador
Quando alguém diz “a Bolsa subiu”, parece que a economia inteira ficou melhor. Só que essa frase esconde uma distância enorme entre o que acontece no pregão e o que acontece na vida de quem vive de salário. A crítica progressista clássica costuma apontar que o mercado de ações pode crescer mesmo quando a sensação de bem-estar coletivo não cresce junto, porque o preço do ativo responde a expectativas de lucro e a condições financeiras, não necessariamente a melhoria de renda e estabilidade para a maioria.
Essa desconfiança conversa com um diagnóstico bem difundido na economia política: a era da financeirização empurrou parte do capitalismo para a lógica do ganho financeiro e do ganho de capital, em vez de lucro produtivo com reinvestimento e emprego. Em textos sobre rentismo e capitalismo financeiro, aparece a ideia de que o sistema passa a premiar mais a valorização de ativos do que a expansão de capacidade produtiva, e que isso tende a “puxar” incentivos para especulação, extração de renda e poder concentrado. Você vê ecos desse argumento em debates acadêmicos sobre rentierismo e o papel de rentistas e financistas.
A sacada progressista aqui não é demonizar quem compra ações. A crítica é mais estrutural, quase arquitetônica. Se o desenho do jogo empurra executivos a perseguir o curto prazo para agradar acionistas, se o bônus depende do preço da ação, se recompras e dividendos viram o caminho mais fácil para “criar valor”, então o conflito aparece: investir em inovação, salário, segurança e transição verde pode virar um custo a cortar, não uma prioridade.
Ações como termômetro de poder
Tem uma frase que eu costumo usar para organizar essa visão: ações não são só um instrumento financeiro, são um instrumento político no sentido amplo. Não político de partido, mas de poder. O preço da ação influencia decisões, define quem tem voz em assembleia, condiciona fusões, aquisições, demissões, metas de produtividade.
Algumas correntes progressistas vão além e descrevem o mercado acionário como uma espécie de tecnologia de poder corporativo, onde o valuation funciona como medida de “capacidade” de mandar e moldar o futuro. Há debates acadêmicos que tratam o mercado como expressão de poder capitalista, tentando explicar por que ele se comporta do jeito que se comporta e o que isso diz sobre desigualdade e dominação econômica.
Quando a conversa vai para desigualdade, fica ainda mais visceral. Quem tem ativos se protege melhor da inflação e surfa ciclos de valorização. Quem não tem, fica exposto ao custo de vida e ao risco do emprego. E aí surge o incômodo: se o crescimento da riqueza vem principalmente de ativos, e os ativos se concentram, o mercado pode virar uma esteira rolante que acelera a distância entre topo e base.
O mercado é vilão ou ferramenta?
Aqui vale respirar e tirar a moralidade da mesa por um segundo, porque progressistas mais pragmáticos fazem uma distinção importante: o mercado de renda variável pode ser uma ferramenta útil de poupança e alocação de capital, mas precisa de cercas. Sem cercas, ele se torna um parque de diversões para quem já tem dinheiro, e um lugar hostil para o resto.
Essa visão costuma defender coisas como: uma regulação que não seja decorativa, uma tributação que não premie apenas ganhos de capital, uma política antitruste que reduza o poder de monopólios, regras que alinhem o interesse de investidores com o interesse público, e mecanismos para diminuir assimetria de informação.
Não é um pacote único, mas o espírito é esse, não abandonar o mercado, e sim impedir que ele governe sozinho.
Stakeholders, não só shareholders
Nos últimos anos, um termo virou senha de debate: stakeholder capitalism. A ideia é colocar funcionários, consumidores, comunidade e meio ambiente no quadro de prioridades da empresa, e não só acionistas. Isso aparece tanto como proposta de reforma quanto como disputa semântica, porque tem quem diga que é mudança real e tem quem veja como marketing corporativo com verniz social.
Há textos influentes defendendo que esse deslocamento precisa virar regra de governança, não só discurso, justamente porque o desgaste social com o modelo atual pressiona por reformas que distribuam prosperidade de forma mais ampla. E, do lado progressista de think tanks e formuladores de política, também aparece a discussão sobre informação e regulação em torno de métricas ESG, como forma de reduzir opacidade, greenwashing e assimetria na avaliação de risco e impacto.
Se você já ouviu alguém dizer que ESG é perfumaria, vale lembrar o motivo pelo qual progressistas insistem tanto em disclosure: informação é poder. Mercado adora dizer que precifica tudo, mas ele só precifica o que enxerga. Quando riscos climáticos e sociais ficam invisíveis, eles não desaparecem. Só viram surpresa cara depois.
ESG, disclosure e a briga pela verdade em público
O debate de disclosure climático nos EUA mostra bem como essa visão vira batalha institucional. Houve regra, houve contestação judicial, houve recuo, e isso virou uma novela sobre autoridade regulatória e custo de compliance. Em 2024, por exemplo, a SEC chegou a pausar a implementação da regra por causa de disputas na Justiça. Depois, notícias indicaram mudança de postura na defesa dessas regras em 2025, já com outra composição de liderança, o que reforça como esse tema é politicamente instável.
Para progressistas, esse tipo de vai e volta é quase um retrato do problema: o mercado opera melhor quando há transparência e comparabilidade, mas a criação dessas regras sempre enfrenta resistência de setores que preferem manter custos sociais fora do balanço.
Um jeito simples de ver as diferenças
A tabela abaixo não pretende carimbar ninguém. Ela ajuda a perceber por que, em conversas sobre Bolsa, pessoas progressistas podem soar céticas mesmo quando reconhecem utilidade econômica do mercado.
| Pergunta que está por trás | Leitura progressista comum | Risco que fica aceso | Resposta típica |
|---|---|---|---|
| Para que serve a Bolsa? | Canal de financiamento e também mecanismo de poder | Valorização desconectada da vida real | Regras para alinhar incentivos |
| Quem se beneficia mais? | Quem já possui patrimônio e acesso | Aumento de desigualdade | Democratização de propriedade e tributação |
| Como empresas decidem? | Pressão por retorno e curto prazo pesa muito | Cortes em salário, segurança, inovação | Governança com foco em stakeholders |
| O que o mercado não vê? | Externalidades, clima, precarização | Crises e custos sociais futuros | Disclosure, fiscalização, padrões |
Repara como quase tudo gira em torno de incentivos. Esse é um traço bem humano do pensamento progressista sobre renda variável: em vez de perguntar se investidores são bons ou maus, a pergunta vira onde o sistema empurra a gente.
Democratizar a riqueza sem romantizar a Bolsa
Tem um pedaço dessa discussão que é menos óbvio e, ainda assim, muito poderoso. Para progressistas, a solução para desigualdade patrimonial não é convencer todo mundo a virar trader. O sonho não é lotar o país de day traders. O sonho é criar condições para que a riqueza gerada pela economia também vire patrimônio para quem trabalha nela.
Por isso aparecem propostas de participação acionária de empregados e estruturas de propriedade coletiva, como fundos de propriedade inclusiva, trusts de empregados e modelos que distribuem ações ou dividendos para trabalhadores, especialmente em empresas grandes. Há trabalhos do Roosevelt Institute discutindo argumentos econômicos e políticas para corporações orientadas a stakeholders e participação de empregados via estruturas de propriedade. E há debates políticos, como propostas associadas ao Labour no Reino Unido, que circularam com força na década passada, tentando amarrar parte da propriedade corporativa a trabalhadores.
O tempero progressista aqui é sutil: a ideia não é substituir salário por ação, porque isso joga risco de mercado no colo de quem já é vulnerável. A ideia é adicionar uma camada de participação e voz, para que produtividade não vire só bônus executivo e buyback.
Onde a crítica fica mais dura
Quando a renda variável vira o centro do altar, tudo vira uma cerimônia para manter o preço da ação bonito. E aí o progressista pergunta, com um certo sarcasmo cansado: se a empresa está tão saudável, por que não investir em P&D, treinamento, segurança, resiliência da cadeia, descarbonização? Se o lucro é alto, por que o ganho vai quase todo para dividendos e recompras, e não para fortalecer o corpo da empresa e o ecossistema ao redor?
Mesmo quando há quem defenda que shareholder capitalism não precisa ser um jogo de soma zero, a própria existência desse debate mostra o incômodo social com a prioridade acionista como padrão cultural.
E aqui eu faço uma pequena digressão, porque ela ajuda. Muita gente progressista tem investimentos em fundos de previdência, PGBL, planos de aposentadoria, ETFs, até mesmo conta em corretora de cripto usando código de recomendação MEXC (para quem não sabe o que é isso, é um código opcional para quem quer negociar com descontos. Todos gostam, não?). Não existe pureza total num sistema em que a aposentadoria de milhões depende do mercado. O ponto é outro. O ponto é que depender do mercado para sobreviver na velhice, num mundo de salários comprimidos e serviços públicos insuficientes, não é “liberdade financeira”. É uma adaptação forçada.
O progressista investe ou evita?
Depende do progressista e depende do contexto. Tem quem evite por convicção, tem quem invista por pragmatismo, tem quem invista mas defenda reforma profunda. O que se repete é uma ética de cautela.
Você costuma ver três atitudes bem comuns: uma defesa de diversificação e horizonte longo, sem fetiche por giro, uma preferência por estruturas coletivas de poupança, como previdência pública forte e fundos com governança decente e uma valorização de investimento alinhado a critérios sociais e ambientais, não porque isso salva o mundo sozinho, mas porque ajuda a diminuir o abismo entre retorno privado e custo público.
E sim, progressistas também criticam o que virou indústria em torno de ESG, rating, selo, score. Não por acharem que sustentabilidade é irrelevante, mas porque sabem que mercado adora transformar moral em produto. Quando isso acontece, a pergunta vira: quem audita, quem padroniza, quem pune greenwashing? Daí o foco em regulação e disclosure voltar como um refrão.
Uma conclusão bem humana, sem pose de manifesto
Se eu tivesse que resumir sem empobrecer, diria que progressistas enxergam mercados de renda variável como um espelho de duas faces. De um lado, um mecanismo que pode financiar inovação, expandir empresas, viabilizar projetos e permitir poupança de longo prazo. Do outro, um sistema que, deixado solto, transforma riqueza em poder concentrado, recompensa o curto prazo e empurra custos sociais para fora da planilha.
A diferença não está em amar ou odiar a Bolsa. Está em insistir que o mercado não é uma lei da natureza, é uma instituição desenhada por regras. Regra muda comportamento. Comportamento muda resultado. Resultado muda a vida.
E se o texto parece ter voltado várias vezes à mesma tecla, é porque essa tecla é a que mais aparece quando o assunto é renda variável na lente progressista: quando o mercado decide demais, a democracia decide de menos.