Pancho Guedes, um herói da arquitetura moçambicana

Quando era menino, Walter Tembe brincava naquela casa de formas estranhas na avenida Maguiguana, no centro de Maputo, e que muito o fascinava, tanto que se determinou a ser arquiteto.

Numa das suas lendárias produções criativas, o arquiteto Pancho Guedes, desaparecido aos 90 anos há precisamente uma semana na África do Sul, deu à cobertura da estrutura a forma de uma asa de uma aeronave e, mais do que o nome Leite Martins, a moradia ficou conhecida como Casa Avião.

 

Walter Tembe residia mesmo atrás, mas na Casa Avião já não vivia ninguém. O proprietário tinha partido após a independência de Moçambique, tal como Pancho Guedes, deixando para trás a sua assinatura em dezenas de edifícios quando a avenida Maguiguana ainda era Latino Coelho e Maputo era Lourenço Marques.

“Brincávamos às escondidas, brincávamos à guerra, pelos telhados, pelo interior da casa, pelo quintal, acho que fiquei arquiteto por causa desta casa”, diz o estudante de arquitetura, 34 anos, recordando os primeiros tempos de Moçambique independente e o chamado “decreto 20/24” do Governo de Samora Machel, que dava um ultimato à escolha da cidadania moçambicana ou a alternativa de abandonar o país em 24 horas com vinte quilos de bagagem.

“Pancho ficou tão zangado que desenhou Samora Machel a comer os edifícios dele”, conta Walter Tembe, que, a par dos estudos, é também guia da agência turística criada pela britânica Jane Flood, oferecendo roteiros pelas principais peças arquitetónicas da cidade, incluindo obras do arquiteto, pintor e escultor português, como a Casa do Dragão, o Prédio Abreu, Santos e Rocha ou o Leão que Ri.

A Casa Avião, criada em 1951, e onde Pancho Guedes se fez fotografar com a mulher, numa das imagens mais icónicas do artista, é agora ocupada pelos estúdios de uma futura estação televisiva moçambicana e, após o abandono, “está a recuperar o seu ‘glamour'”, contenta-se Walter Tembe.

Falando com evidente paixão, o estudante e guia turístico vê na Casa Avião “arquitetura fluida, não só como um espaço para se viver, mas qualquer coisa que se sinta como único” e isso aprendeu com Pancho Guedes, que conheceu de raspão numa das suas últimas visitas a Maputo.

Enquanto os outros se pautavam pela funcionalidade ou pela tradição portuguesa, Pancho Guedes juntava isso tudo mas tinha modos diferentes de abordar cada obra, observa Walter Tembe, aliando “muito racionalismo em termos estruturais a um grande gozo nas formas”, elevando-as à condição de “arte a sair para a rua”.

O estudante lamenta que a obra de Pancho Guedes seja pouco conhecida em Moçambique, às vezes pelos próprios proprietários dos edifícios que desenhou e que se mostram surpreendidos quando veem turistas a tirar fotografias à sua porta.

Por outro lado, “infelizmente a pressão da economia faz com que alguns edifícios não sejam bem tratados” e as varandas são fechadas, porque as famílias tradicionais moçambicana são em média mais numerosas do que as portuguesas que dantes ali viviam, as casas tornam-se escritórios, as garagens são receções e outras construções simplesmente desaparecem para dar lugar a arranha-céus.

“Talvez com a sua morte, as pessoas comecem a falar dos edifícios e percebam que têm algo de valor para preservar”, diz Walter Tembe, esperando que “a limpeza da história portuguesa”, após a independência de Moçambique, não apague Pancho Guedes e que os poucos turistas que visitam Maputo se interessem mais pela arquitetura e que a incluam nos seus roteiros, além das galerias de arte e do camarão da Costa do Sol.

Em memória do arquiteto português, a agência de Jane Flood planeia para domingo um roteiro pelo património que deixou em Maputo, uma forma alternativa à tradicional missa do sétimo dia, assinala Tembe, e também uma homenagem.

Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes, mais conhecido como Pancho Guedes, morreu no sábado de madrugada na África do Sul e deixou vasta obra na capital de Moçambique e também em Portugal, Angola e vários países africanos.

 

“Grande mestre e professor único”.

O arquiteto Pancho Guedes foi “genial, um grande mestre e um professor único”, um “homem que foi superior à sua obra”, disse o presidente da Ordem dos Arquitetos de Moçambique. Em declarações à Lusa, João Santa-Rita afirmou que “Pancho [Guedes] foi um homem superior à sua obra, ou a sua obra foi superior à sua condição enquanto homem”.

“O que nos deixa é um vasto património de obras da mais diversa natureza que marcarão para sempre as culturas dos países nos quais viveu e interveio”, afirmou o presidente da Ordem dos Arquitetos, João Santa-Rita.

Para Santa-Rita, “perde-se um grande homem, um genial arquiteto, um grande mestre e um professor único, cujas qualidades humanas e dedicação serão certamente recordadas por todos os seus alunos com a mais profunda das saudades”. As “suas aulas não tinham fim porque o seu entusiasmo e disponibilidade para o ensino e os alunos eram totais”, recordou.

O arquiteto Santa-Rita lembrou o momento em que conheceu a obra de Pancho Guedes, ainda na Escola Superior de Belas-Artes, e que reconhece, “haveria de marcar em muito toda” a sua aprendizagem e aproximação à arquitetura.

O presidente da Ordem dos Arquitetos referiu “um pequeno livro editado em 1964, de Sherban Cantancuzino, intitulado ‘Modern houses of the world’. Na sua primeira página aparecem apenas duas imagens: primeiro, uma fotografia da chaminé da Martins House em Moçambique de Pancho Guedes, depois uma da sala da Villa Mairea, na Finlândia, de Alvar Aalto”. Santa-Rita recordou ainda um encontro “numa universidade, onde estava a Zaha Hadid, referindo-se a Pancho Guedes, disse ‘Oh my great and lovely Pancho’ [Ó, meu grande e adorado Pancho]”.

“Agradeço, em nome da Ordem dos Arquitetos, tudo quanto nos deu, deixou e ensinou, que honram e enriquecem o país e o mundo”, rematou Santa-Rita.

O escritor Helder Macedo, que conheceu o arquiteto em Moçambique, afirmou que Pancho Guedes teve “uma cidade, a então Lourenço Marques [atual Maputo]à disposição para fazer o que queria” e após a descolonização, em 1975, “nunca se integrou em Portugal”, e qualificou o seu trabalho como “genial”.

Registado Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes, mas conhecido como Pancho Guedes, nasceu em Lisboa em maio de 1925, e cedo seguiu com a família para S. Tomé e Príncipe, Moçambique e também África do Sul. Em Maputo são de sua autoria, entre outros, a padaria Saipal, os apartamentos Prometheus, a igreja de S. Cipriano do Chamanculo, o Convento de S. José de Llanguene, e escola de Enfermagem. Construiu também fora da capital, nomeadamente o Hotel e Escola de Agricultura, em Esteve, na região de Boane, ou o Colégio de N. S. da Conceição, em Inhambane. Em Angola é de sua autoria o Banco Totta Standard, em Tombua, e no Reino da Suazilândia a Escola de Waterford. Em Portugal assinou o projeto de arquitetura do Casal dos Olhos, em Eugaria, no concelho de Sintra.

 

Moçambique tem obrigação de reconhecer obra

 

O país tem obrigação de conhecer e valorizar a obra de Pancho Guedes, diz o ministro moçambicano da Cultura e Turismo, reagindo à morte do arquiteto. “Moçambique como os outros países tem a obrigação de que o seu nome seja imortalizado”, afirmou Silva Dunduro, expressando que o Governo de Moçambique, onde Pancho Guedes deixou vasta obra, “está constrangido com esta notícia”.

Pancho Guedes, observou, “não foi apenas um arquiteto ou um criador de paredes, foi também um construtor de imagens criativas na perspetiva da arquitetura moderna”, tendo criado, com a sua linguagem, “uma ponte entre África e Europa”. O “mais importante agora é fazer uma avaliação deste património e encontrar formas de o valorizar”, prosseguiu o ministro, defendendo que as 20 obras mais representativas de Pancho Guedes em Moçambique sejam incluídas nos roteiros turísticos.

Apesar de ser um grande figura da arquitetura, da pintura e da escultura, “pouco se falou dele no contexto dos grandes nomes em Moçambique”, lamentou Silva Dunduro. O governante, que é também um dos mais reconhecidos artistas plásticos de Moçambique, espera que, da valorização do espólio de Pancho Guedes, “os mais novos conheçam como a sua obra contribuiu para a construção de sociedades modernas em África”.

Em 2009 o Museu Berardo, em Lisboa, fez uma retrospetiva da obra de Pancho Guedes, intitulada, “Vitruvius Moçambique”. No texto de apresentação da mostra podia ler-se que “as arquiteturas de Pancho Guedes vão de explorações extravagantemente opulentas e pessoais do espaço e da forma, em que as artes plásticas se misturam e se fundem, até edifícios austeros e esparsos desenhados para respeitar condições financeiras difíceis e rigorosas, sem limites claramente identificáveis”.

“Em todos os casos, as criações resultantes não são de forma alguma diminuídas pelas circunstâncias da sua materialização. Todas as suas criações se encontram imbuídas de almas individuais, distintas, que falam e sorriem orgulhosamente, mesmo quando diminuídas pela idade e pelo uso abusivo”, lia-se no mesmo texto.