O regresso a Chã das Caldeiras, uma comunidade que só ganha vida à sombra do vulcão

Um ano depois, os desalojados da erupção do Fogo regressam a Chã das Caldeiras, onde se erguem já algumas construções, contra a vontade das autoridades, mas por força de uma comunidade que só ganha vida à sombra do vulcão.

Nascido e criado na Chã das Caldeiras, Cecílio Montronte orgulha-se de ser o mais antigo guia turístico na cratera. Foi dos primiros a regressar, depois da erupção que começou a 23 de novembro, lhe ter levado a pequena pensão que geria na antiga localidade da Portela.

 

Com a lava ainda a correr – a erupção seria apenas declarada como extinta a 08 de fevereiro – o também vice-presidente da associação local de guias turísticos chegou a Chã das Caldeiras logo a 23 de janeiro.

“A minha vida é aqui. O vulcão é a minha mãe e eu sou o filho do vulcão”, disse à agência Lusa, explicando que viver fora da cratera não é solução.

“Nasci aqui, vou morrer aqui!”, afirma perentório, encarando com tranquilidade a possibilidade de nova erupção.

“Pode acontecer hoje ou amanhã ou depois de amanhã, ou daqui a 20 ou 30 anos”, adianta, assumindo o risco porque, segundo diz, não há “outra forma de viver a não ser em Chã das Caldeiras”.

Regressou para retomar o trabalho como guia e reconstruir o que o vulcão destruiu.

Por agora vive na casa do irmão, que remodelou, e onde já consegue alojar e fornecer refeições aos muitos turistas que por estes dias chegam à ilha cabo-verdiana do Fogo, enquanto constrói lentamente a sua própria casa.

Com a construção de habitações proibida em Chã das Caldeiras, Cecílio Montronte admite que as autoridades não lhe dão descanso por causa da falta de licenças, mas diz que está há um ano sem lugar para morar e que tem que fazer pela vida.

Estima que mais de uma centena dos 1.500 desalojados da erupção tenham já regressado para reabilitar as suas casas em Chã das Caldeiras, e que muitos outros venham apenas para trabalhar e regressem depois aos alojamentos.

“Há pessoas que estão ainda com muitas dificuldades para restabelecer a vida em Chã das Caldeiras”, diz.

Agricultor, Pedro Monteiro Fernandes, 31 anos, personifica muitas dessas dificuldades.

Desde o início do ano agrícola que retomou o trabalho nos campos de Chã das Caldeiras, onde cultiva feijão congo, milho e outros produtos.

“É aqui que temos que ficar porque é aqui que ganhamos a vida. No outro lado não temos terreno, não temos nada”, diz, considerando que as casas prometidas pelas autoridades estão a demorar muito a ser construídas.

Sem casa na cratera, fica em casa dos irmãos quando está na Chã das Caldeiras, mas a maior provação é ter que viver longe dos quatro filhos e da mulher, realojados no assentamento de Achada Furna, no município de Santa Catarina.

Aqui, 109 famílias num total de 416 pessoas recebem ainda, quinzenalmente, cestas de alimentos essenciais e apoio médico, distribuído pela Proteção Civil.

“O problema é que os meninos para irem para a escola têm que ficar lá em baixo e só vêm para a Chã das Caldeiras ao fim de semana”, lamenta.

Achada Furna, onde o governo construi casas para realojar os deslocados da erupção do Fogo de 1995, voltou agora a acolher parte dos desalojados de novembro de 2014.

Os restantes encontram-se divididos por um assentamento com características semelhantes em Monte Grande, no município de São Filipe, e em casas alugadas e de familiares nos Mosteiros e cidade de São Filipe.

As casas dos dois assentamentos de 1995, moradias em regra com dois quartos e muitas sem casa de banho, estão a ser remodeladas por duas empresas portuguesas para criar condições de habitabilidade para famílias com quatro ou cinco filhos em média.

As obras incluem alargar as habitações, construir em muitos casos cozinhas e casas de banho e substituir as coberturas de fibrocimento, tudo isto com as famílias a viverem o seu quotidiano.

“Teria sido mais fácil construir tudo de raiz”, admite Jorge Pop, engenheiro do grupo Elevo, responsável pelas obras em Monte Grande, onde estão realojadas 271 pessoas em 71 moradias.

Foi na Achada Furna que as autoridades cabo-verdianas decidiram, depois de auscultados os desalojados, localizar a construção do novo povoado para receber as gentes de Chã das Caldeiras, projeto que ainda não saiu do papel.

É também em Achada Furna que vive Rita, com 34 anos e seis filhos, a mais pequena nascida 12 dias após a erupção.

Da família de Rita fazem ainda parte a mãe, um irmão, uma irmã e vários sobrinhos, também desalojados pelo vulcão, daí que tenha sido preciso, acrescentar à casa materna a tenda distribuída imediatamente a seguir à erupção e que hoje serve de casa à irmã e aos sobrinhos de Rita.

Nos assentamentos os problemas das casas saltam à vista: portas que não fecham, janelas sem vidros, telhados que deixam entrar a água das chuvas e sobretudo, falta de terreno para cultivar.

Por isso, Rita já construiu na Chã uma “casinha de mais ou menos seis metros” para ficar com os filhos quando vai trabalhar.

O regresso definitivo ao planalto fica para já adiado.

“Não há escola, nem igreja e por isso não posso ficar lá sempre, porque os meninos têm que ir à escola e nós temos que ir à igreja”, rematou.

Já plenamente reinstalados em Chã das Caldeiras, estão Marisa Pina e o marido Mustafá, proprietários dos alojamentos Casa Marisa e Pedra Brava, destruídos pela erupção de 23 de novembro.

Em menos de um ano, o casal reergueu e ampliou um dos hotéis, que se chama agora Casa Marisa II e está em pleno funcionamento desde 01 de outubro.

“Estou muito feliz porque já posso começar a nova vida em Chã das Caldeiras”, disse Marisa à agência Lusa, admitindo que o hotel foi construídos e está a funcionar sem licença, porque, segundo diz ninguém respondeu aos pedidos de licenciamento.

Segundo a empresária, o hotel “está a funcionar bem”, mas com a maioria da população ainda fora da Chã das Caldeiras “não é a mesma coisa”.

“Os clientes não querem só uma pensão. Estão interessados na população, querem participar, querem ver as gentes daqui a trabalhar. Porque Chã das Caldeiras não é só o vulcão é a população que cria o ambiente agradável que temos aqui”, considerou.

No entanto, sabe que para muita gente não é ainda possível o regresso á cratera.

“Há gente que está a viver sem as mínimas condições. Já passou da hora de estar tudo resolvido, mas estamos a esperar para ver”, disse.

O vulcão do Fogo entrou em erupção a 23 de novembro do ano passado, causando prejuízos avaliados em cerca de 30 milhões de euros.

Durante os 77 dias que durou, a erupção vulcânica, uma das três registadas no interior da caldeira nos últimos 63 anos – 1951 e 1995 -, destruiu Portela e Bangaeira, os dois povoados de Chã das Caldeiras, planalto que serve de base aos vários cones vulcânicos do Fogo, obrigando à retirada dos cerca de 1.500 habitantes locais.

A lava destruiu também mais de 30 por cento dos 700 hectares de terra cultivável e várias infraestruturas